cicatrizes, narrativa em várias vozes, em construção

parte I: carro

Eram quatro garotos de 13 anos, não mais do que isso, e digo que não menos. Idade fácil de distinguir: todos lembramos de nossos colegas e amigos de rua dessa idade. Estavam bebendo o que pensei ser cachaça, mas de certo era refri, afinal, eram pré-adolescentes e não pareciam do tipo avançado nesse sentido. É, acho que era apenas refrigerante. O lance é´que eu sabia que meu freio estava desregulado e já o havia testado, com falha, em alguma ocasião. Sim, eu deveria ter dado jeito nisso, mas esperava a próxima revisão do carro. E claro que regulações a respeito de revisão servem justamente pra isso, mas eu já tinha o hábito de revisar o carro regularmente, ou quase regularmente: tirava férias todo verão, ou ao menos parte de minhas férias sempre no verão, justamente pra uma estadia na praia. Bem, não revisara o carro naquele último verão porque, excepcionalmente, não tive sequer férias parciais, e, claro, consequentemente não fiz a revisão quase regular do carro, e o assunto dos freios ficou postergado. Os garotos não deviam estar a mais de 20 metros à frente do veículo, de fato, acho que pouco mais de 10 metros. Acho que lembrei do freio não funcionando, ao menos não tenho qualquer memória de ter tentado o pedal, e se tivesse tentado, talvez não sobrasse tempo para a alternativa. O que fiz foi um giro à esquerda, mas um giro brusco, violento até, embora tenha cuidado para virar apenas o suficiente pra mudar a direção do carro. Uma curva maior teria jogado-o de lado à frente, provavelmente, então apenas cuidei para que não seguisse reto, na direção dos garotos. Nem vi se outro carro vinha pela pista à minha esquerda, e acho que é muita sorte que não, porque uma batida ali poderia ter sido desastrosa. O carro seguiu na direção que tomei e não bateu de frente, entrando de lado na parede do prédio, força o suficiente apenas pra destroçar a lataria frontal-esquerda e impulsionar meu corpo para a frente, daí o vidro quebrado e os cortes na testa e ao lado do olho.

parte II: fórceps

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