dois textos: 2007 vs 2013

fevereiro/2007

vasculhando o apartamento em busca de uma carteira de cigarros. qualquer uma, sempre há tantas largadas por aí, talvez tenha uma bituca sobrando. não tem.
‘aceite a condição e volte para a cama’
‘não vou conseguir agora que já tenho consciência da necessidade do cigarro’
‘saia, caminhe até encontrar alguém e peça um cigarro’
‘impossível tamanho esforço sem o primeiro do dia’
procura na lixeira por alguma carteira erroneamente jogada fora, nada. nos cinzeiros, apenas bitucas inutilizáveis e cinzas. abre a carteira pela terceira ou décima-terceira vez naquela manhã e novamente não há uma nota escondida em algum compartimento ou amassada sobre identidade, cartões, propagandas, bilhetes. pensa no que poderia distraí-lo da vontade de fumar. um bom filme, mas esses são sempre melhores na companhia do cigarro. aquela garota, ah deus, só de pensar nela já sente vontade de fumar um cigarro pra aspirar e expirar o prazer, então, quem sabe, bem, voltar pra cama é impossível.
‘você realmente precisa parar de fumar’
‘meudeus, me dê um cigarro’
‘eu sou uma voz na sua cabeça, não tenho a disponibilidade material para isso’
‘então por que você está aqui?!’
‘ah, apenas um desencargo criado por sua mente na ausência de cigarros’
‘e serve para…?’
‘bom, sempre discutimos juntos. antes, era em busca de soluções, procurávamos juntos por algum cigarro esquecido por algum canto da casa. lembra? quando você pensava não saber onde procurar, eu lhe dava uma dica’
‘suas dicas não serviram para nada, obviamente!’
‘não, a função da voz para debate é justamente a de debater: discutimos e damos idéias um ao outro, mas a causa e resultado das suas discussões com suas vozes são sempre você mesmo.’
‘de qualquer forma agora tu não me serve pra nada’
‘não diretamente, mas tu já usou pra descontar a raiva e agora pra se distrair da falta de cigarros’
‘é, estamos ganhando tempo, pelo menos. tempo até o que?’
‘alguém pode aparecer com um cigarro’
‘ou eu posso sair e arranjar um…’
‘eu já lhe sugeri isso, e você mesmo disse que’
‘é, é, tá certo. não tem jeito de eu fumar você não?’
‘não sou uma viagem de ácido, cara. e se tua mente fosse criativa a ponto de criar as sensações causadas pelas substâncias – além do apelo psicológico – do cigarro, você certamente nem precisaria comprar cigarros!’
‘isso tudo faz sentido… então, posso fumar você?’
‘tá, vai lá’.

agora, com licença, vou acender um cigarro.

“ode a um cigarro”, maio/2013

Achei uma bituca de marlboro Light, que momento!

Que momento!

Haverão celebrações;

luzes se acenderão

e o fogo queimará.

Sacrificaria um bode e queimaria uma vela;

um bode para o banquete!

Me abstenho, e não haverá sangue derramado, pois es-t-s-ou só.

Quanto à vela… Não, obrigado.

Não fumo maconha. NADA

contra, até tenho amigos que

nadam a favor

Afaga-me, cinzazulado!

Por dentro me acaricias

Que belo cigarro,

que momento! Que momento!

Hoje, quando os fantasmas cantavam,

sorri, porque sabia que eram eles

arautos da ventania.

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